terça-feira, 8 de março de 2011

O que é o Turismo?

Para essa discussão nos direcionamos a Thomas S. Kuhn e sua obra A estrutura das Revoluções Científicas. A palavra-chave para entender o pensamento de Kuhn é paradigma. Platão empregava o termo paradigma como modelo; Aristóteles considerava paradigma como exemplo. Kuhn empregou esse termo em vários sentidos, o que chegou a causar certa confusão entre seus leitores. Kuhn percebe o avanço das ciências em forma de saltos, de rupturas. Para ele, o pesquisador que não está satisfeito com o paradigma vigente, pode buscar outra teoria que explique melhor o objeto estudado. Tal pesquisador não é obrigado a aceitar os fundamentos de outros pesquisadores. exemplificando, Kuhn usa o fato de que antes de Isaac Newton, todo cientista que quisesse estudar a óptica física teria o trabalho de formular os seus próprios fundamentos. Teria de construir e fundamentar toda uma teoria para explicar a realidade em questão, uma vez que não existia um conjunto-padrão de métodos ou fenômenos que fossem aceitos por todo o grupo de pesquisadores, fator que não dava sustentação e segurança para usar tal teoria, se é que ela existia.
Ainda, segundo o próprio Kuhn, com o desenvolvimento da ciência "hoje em dia esse padrão é familiar a numerosos campos de estudo criadores e não é incompatível com invenções e descobertas significativas". explicando: hoje cada ciência tem o seu ou os seus padrões (paradigmas, modelos, fundamentos) criados por seus pesquisadores que servem de orientação para esses mesmos pesquisadores. Assim, compreende-se a explicação de Kuhn, segundo a qual paradigmas seriam conceitos teóricos e valores aceitos por uma comunidade científica que aplica tais conceitos e valores em suas pesquisas. As conquistas seriam científicas, obtidas que são universalmente, reconhecidas por seus pares e que fundamentam, por um período de tempo, o avanço da ciência. 
Apesar de a visão sistêmica ter se constituído em um paradigma (posição aceita por Dencker & Bueno e por Beni) e ser a mais aceita e conhecida pelos estudiosos do turismo ( para confirmar essa afirmação, basta um pouco de visão e de leitura das maiores e melhores referências de turismo mundial), nesse campo ainda não há uma teoria que congregue seus pesquisadores em uma mesma metodologia de estudo. prova dessa afirmação são as novas abordagens que inúmeros autores vêm propondo ao turismo recentemente. Nesse caso, o turismo encontra-se no estágio paradigmático, com o "Paradigma Sistema de turismo", mas que já se encontra fragilizado pelas críticas e novas propostas de estudos de outras correntes que não a Teoria Geral de Sistemas.  
Segundo Kuhn, existe um estágio antes da formação de um paradigma em uma ciência, que é o estágio pré-paradigmático, considerado como aquele momento em que uma teoria está sendo gestada e enfrenta os desafios e obstáculos de uma ciência que está se formando, como, por exemplo, falta de credibilidade e dificuldade de responder a novos problemas, em virtude da criação de novas abordagens dos problemas. nesse estágio, os avanços são percebidos somente por aqueles que estão trabalhando com essa nova teoria. De acordo com Kuhn, durante o período pré-paradigmático, quando temos multiplicidade de escolas em competição, torna-se muito difícil encontrar provas de progresso, a não ser no interior das escolas.
Com tal delineamento, afirmando que o turismo possui um paradigma, não pretendemos dizer que ele deva ser elevado ao status de ciência, pois esse próprio termo apresenta problemas semânticos nessa área acadêmica. além do mais, qual seria a importância de o turismo constituir ou não uma ciência? o progresso do turismo? Ou, nas palavras de Kuhn: " um campo de estudos progride porque é uma ciência porque progride?".
Jafar Jafari destaca que quando um campo de estudo evolui para a maturidade, são introduzidos e buscados novos dados que denotam avanço progressivo e assinalam a transição desejada dentro desse campo de estudo. com relação às metas promissoras, elas potencialmente conduzem o corpo de conhecimentos a novas  fronteiras. Para Jafari, a revisão desses progressos cumulativos no turismo pode ilustrar o trajeto revelado de cientifização (termo oferecido por Jafari par falar do processo de elevação do turismo à categoria de disciplina científica), e destaca três pontos que estão entre aqueles com os quis Jafari está mais familiarizado que demonstram o processo de amadurecimento científico. São eles:
  • A criação do periódico internacional Annals of Tourism Research em 1973, que publica, preferencialmente, artigos com aspectos sociais do turismo.
  • A fundação da Internacional Academy for The Study of Tourism.
  • A criação da Encyclopedia of Tourism, em 2000, da qual o próprio Jafari é o editor-chefe.
Salientamos que não é problema o fato de o turismo não ser aceito como ciência. Ao lermos os autores que tratam da produção do conhecimento em turismo, percebemos que há três grupos com opniões distintas.
Há um grupo otimista que acredita que pela produção científica existente o turismo pode ser considerado ciência. Outro grupo, também otimista mas cauteloso, acredita que o turismo está a caminho de se tornar ciência, mas que para isso acontecer a pesquisa na área de ser intensificada: o objeto abordado e o método de pesquisa utilizado têm de ser claramente definidos. E há o grupo que percebe o turismo como atividade humana que e estudada pelas mais diversas disciplinas científicas e que não é e nunca será ciência.
Segundo o próprio Kuhn, a solução dessa questão depende do olhar de quem observa, sendo possíveis várias respostas. dependendo da fundamentação de cada resposta, as duas podem ser válidas.ou seja, depende do observados! essa não é uma posição viável, pois entendemos que esse ponto de vista leva ao relativismo e à responsabilidade conceitual. Em nosso entender, o turismo (ainda) se constitui em um campo de estudos de outras ciências, que não apresenta método de pesquisa nem objeto definidos, pois não possui corpo teórico conceitual que lhe permita ascender ao status de disciplina (ciência), com método de investigação e objeto de pesquisa próprios.

(Texto extraído do Livro Filosofia do Turismo - Panosso Netto, Alexandre)

2 comentários:

  1. Esse livro do Kuhn é uma importante referência no debate acercar dos novos paradigmas das ciências sociais e humanas contemporâneas. Particularmente, comungo da idéia de que o Turismo institucional (acadêmico) ainda não se constitui enquanto Ciência. Mas pautar esse tipo de debate é bom um começo, já que no fim, adquirir o status de Ciência é um desejo de todo turismólogo.

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  2. De fato isso é um debate amplo.O setor ainda é pouco valorizado tanto pelos motivos argumentados no texto,como também por se tratar de uma área que foi começando a ser vista como de importância pelos filósofos muito depois do conhecimento acerca do fenômeno, ou seja,o mais interessante para os estudiosos era analisar o turismo mais direcionado à economia do que com as mudanças sociais (a relação do turista com a sociedade local,o pensamento tanto do turista quanto da comunidade após essa "integração", etc) que ela causa para todos as pessoas que de uma forma direta ou indireta participa dessa atividade. E hoje as discussões se acentuaram consideravelmente devido os profissionais que tem se formado ao longo desses anos.

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